A Grande Espiral



Falina, a águia que tudo observava, viu que sua avó, Tilny, já não conseguia agarrar suas presas. Suas unhas estavam compridas e flexíveis; o bico, antes tão perfeito, apresentava-se alongado e pontiagudo. Curvando-se e apontando contra o peito, estavam as asas envelhecidas e pesadas, em função da grossura das penas - o que dificultava demais o ato de voar!


Sua avó já não conseguia acompanhá-la nos vôos pelo céu, quando observavam a vastidão do planeta. Um dia, Tilny chamou Falina e disse: - Neta, tenho 40 anos e, nesta idade, nós águias precisamos tomar uma séria e difícil decisão. Morremos ou seguimos para a Montanha da Renovação e lá permanecemos por cinco meses; e assim viveremos mais trinta anos. Falina escutava atenta. Tilny continuou a falar: - Tomei a decisão de ir para a montanha e quero que você vá comigo para aprender o caminho que um dia deverá trilhar. Falina, num misto de curiosidade e medo, concordou de imediato. No dia seguinte, as duas seguiram rumo ao destino. Era uma alta montanha, próxima a um imenso paredão. Lá, com a ajuda de Falina, Tilny começou a construir um belo ninho. Após ter feito a sua moradia, a avó disse a neta: - Agora devo começar meu ritual de renovação. É preciso retirar de mim tudo aquilo que não me serve mais. Imediatamente, começou a bater o bico contra o paredão até arrancá-lo. Falina via a dor de sua avó se expressar com a força de cada empreendida. Os olhos umedeciam de amor e ela nada podia fazer, apenas observar e aprender. Sem o bico e exausta, a avó se aquieta no ninho e fecha os olhos à espera do nascimento de um novo bico. Falina voa para caçar e respirar o ar do planeta azul que tanto lhe fascina. Retornando após alguns dias, encontra a avó com um novo bico, a arrancar suas próprias unhas. Uma a uma, as garras são arrancadas. Sem compreensão do processo, mais uma vez, Falina voa pelas montanhas pensando na avó. Dia após dia, observa-se o processo de nascimento de novas e fortes unhas. Um dia, já com todas as unhas formadas, Tilny dá início ao último e doloroso processo de renovação: arrancar as velhas penas. O corpinho frágil da avó se apresenta e as penugens que lhe restam se arrepiam ao toque do amado avô Ar. Mais uma vez, a avó se aninha, exaurida, com a difícil tarefa. Enfim, após cinco longos meses, Tilny sai para o famoso vôo de renovação, pronta para viver mais trinta anos. As duas dançam com as nuvens, bailam com as estrelas das manhãs e cantam com as montanhas. Agora, como duas amigas, podem voltar a caçar e repousar em local onde só aqueles que têm asas podem alcançar.


Refletindo e questionando:

Quantas vezes em nossas vidas precisamos nos recolher para arrancarmos de nós o que não mais nos serve? A natureza fala do recolhimento, onde, solitariamente, o indivíduo se renova através da sua própria dor. É expondo para nós mesmos nossas angústias, dores e paixões que conseguimos atravessar portais tão difíceis! É sendo honesto consigo, tendo cada vez mais consciência da intenção do ato ou da atitude que se tem, que se poderá usufruir do processo de renovação. É a morte e a vida conscientes e plenas de lucidez que proporcionam a cada ser a dignidade de cerrar os olhos e dizer em silêncio: EU SOU.

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