quem sou


quem sou
Nasci no Brasil, interior das Alagoas, em uma cidade conservada e porque não dizer, paralisada pelo tempo. Passo de Camaragibe. Concebida no mês das águas, julho, e parida no tempo do outono, abril. Ano de 1953. Naquela madrugada a avó lua ainda ofertava seu raios à Mãe Terra, o prateado de seu brilho iluminava o caminho que seguiria. Era final da lua minguante e entrada da lua nova. Por um bendito desvio de rota fui criada em família diferente da que pertencia, fui cuidada por madrinhas, minhas fadas madrinhas. Precisei dizer um enorme SIM à vida para poder sobreviver. Fiz dos invisíveis  minha força maior e com eles passei a maior parte da minha infância, convivendo, vendo, ouvindo. Sendo treinada silenciosamente pelo espaço/tempo. “Menina que vê coisas estranhas, que ninguém vê, só ela...” era assim conhecida.

Fui seguindo o roteiro comum, estudar, casar, trabalhar e quem sabe, um dia me encontrar. Caminhei por entre locais desconhecidos, buscando sem saber de verdade o que realmente buscava. Sendo levada pelos sentidos ainda inconscientes, ia sendo empurrada pra conhecer caminhos que quase sempre nada me diziam.

Em meu sangue corria a força e liberdade dos povos originais da terra. Do índio, do negro e claro, a força dos conquistadores brancos que por aqui chegavam e se apaixonavam pelo cheiro das matas e pelo cantar da natureza. E foi esse sangue mesclado que me chamou a conhecer meu mundo interior, a escutar a voz que clamava e queimava em mim. Essa voz que estava dentro de mim. Mas na imaturidade da escuta, me perdia no desespero por escutar apenas o eco distorcido da minha própria voz. Viajei por terras longínquas desse planeta buscando escutar lá, distante de mim o que estava tão próximo, dentro de mim.

Até o dia que silenciosa em mim, pude escutar, pude voltar a ver os invisíveis e seus mandamentos. Respirei e mergulhei , agora em mim, no profundo de mim. Fui modelada no barro da minha mãe, a Terra mesclada à fluidez da Avó Água, soprada pelo meu avô, o Ar e aquecida de forma precisa pelo Avô Fogo. Iniciada nos quatro elementos. O Chamado Xamã.

Amo fazer o que faço. Vivo com, do e para o xamanismo da Deusa Mãe. Que me guia e que me faz penetrar mundos paralelos indescritíveis, que me faz ver as diferentes habitações de mim mesma. Minhas desafiadoras sombras e minha graciosa e inocente luz.

Sou grata a tudo que me foi e é ofertado nessa vida, às milhares de pessoas que tive e tenho a honra de ofertar meus serviços, aos filhos e filhas paridos/as e não paridos/as, ao meu seleto grupo de amigos e amigas de verdade, às pessoas que estão tão, tão próximas de mim e que me ajudam a respirar  e me permitir ser quem eu sou em minha frágil humanidade. Ao meu amado companheiro de tantos anos, seguidor, ele também, desse caminho apaixonante, mas nem sempre fácil, minha ternura e pacífica respiração.